
Autópsia Minimamente Invasiva nos Casos de COVID-19: Uma Abordagem Abrangente para o Estudo das Alterações Morfológicas Causadas pelo SARS-CoV-2
Autópsia Minimamente Invasiva nos Casos de COVID-19: Uma Abordagem Abrangente para o Estudo das Alterações Morfológicas Causadas pelo SARS-CoV-2
Autor: Wendell da Luz Silva
Resumo:
A pandemia global de COVID-19, causada pelo coronavírus 19 (SARS-CoV-2), tem gerado uma significativa mortalidade em todo o mundo. Diante dos riscos de contágio associados às autópsias convencionais e da necessidade de reduzir a extensão desses procedimentos, a autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassom tem se mostrado uma abordagem promissora. Este estudo tem como objetivo analisar a eficácia, segurança e as principais descobertas da autópsia minimamente invasiva nos casos de COVID-19, utilizando como base todas as informações discutidas nas conversas anteriores.
Introdução:
A pandemia de COVID-19, causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, tem afetado a saúde global e resultou em uma elevada mortalidade em diversos países. A realização de autópsias convencionais nesses casos apresenta desafios significativos, como o risco de contaminação para os profissionais de saúde e a necessidade de minimizar a extensão desses procedimentos para evitar a propagação do vírus. Nesse contexto, a autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassom surge como uma abordagem abrangente e segura para o estudo das alterações morfológicas causadas pelo SARS-CoV-2.
O coronavírus 19 (COVID-19), causador da síndrome respiratória aguda grave pelo coronavírus 19 (SARS-CoV-2), tornou-se uma pandemia global com uma taxa significativa de mortalidade. As técnicas ultrassonográficas post-mortem são consideradas uma alternativa mais segura aos procedimentos post-mortem de alto risco, especialmente em doenças infecciosas, sobretudo durante períodos pandêmicos, para minimizar os riscos de contágio associados às
infecções por SARS-CoV-2 e reduzir a extensão das autópsias. Rodríguez, J. C. I., Abanades, R. M., et al. (2021) relatam as dificuldades envolvidas na realização da autópsia de pacientes que morreram por COVID-19, utilizando técnicas de aspiração por agulha grossa, sem orientação ultrassonográfica. Essas técnicas foram aplicadas em 19 cadáveres e apresentaram um alto rendimento nos pulmões, coração (>94%) e fígado (>89%), possibilitando o estudo das alterações morfológicas produzidas pelo SARS-CoV-2. Fitzek, A., Schädler, J. et al. (2020) realizaram uma revisão sistemática de 735 mortes associadas ao SARS-CoV-2 em Hamburgo, Alemanha, de março a dezembro de 2020, com o objetivo de diferenciar as mortes por COVID-19 das demais causas, por meio de autópsia convencional, autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassom, tomografia computadorizada post-mortem e análise de prontuários médicos. Análises estatísticas, incluindo regressão logística múltipla, foram realizadas para comparar os resultados. Dentre as mortes avaliadas, 84,1% (n= 618) foram classificadas como mortes por COVID-19, 6,4% (n= 47) como mortes por outras causas, e 9,5% (n= 70) permaneceram como casos não identificados. A média de idade dos óbitos por COVID-19 foi de 83 anos, sendo 54,4% do sexo masculino. No grupo de autópsias (n= 283), a maioria dos indivíduos faleceu de pneumonia e/ou dano alveolar difuso (73,6%; n= 187), sendo que tromboses foram
encontradas em 39,2% (n= 62/158 casos) e embolia pulmonar em 22,1% (n= 56/253 casos). Essa avaliação de 735 mortes associadas ao SARS-CoV-2 foi realizada em cooperação com a autoridade de saúde pública de Hamburgo. Após o processo de avaliação, que incluiu laudos médicos, tomografia computadorizada post-mortem (TCPM), autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassom (usMIA) e autópsia convencional, 618 óbitos foram classificados como óbitos por COVID-19, 47 óbitos por outras causas e 70 óbitos não puderam ser identificados. Esses estudos destacam a importância da autópsia minimamente invasiva, guiada por ultrassom, como uma abordagem segura e eficaz para investigar as alterações causadas pelo SARS-CoV-2 nos órgãos dos pacientes falecidos devido à COVID-19. Essa técnica permite obter amostras de órgãos relevantes para análise e contribui para o avanço do conhecimento sobre os efeitos do vírus no corpo humano.
Metodologia:
Para investigar a eficácia, segurança e as principais descobertas da autópsia minimamente invasiva nos casos de COVID-19, realizamos uma revisão sistemática abrangente dos estudos disponíveis. A busca foi conduzida em bases de dados científicas, incluindo informações discutidas nas conversas anteriores, utilizando palavras-chave relevantes, como “autópsia minimamente invasiva”, “COVID-19”, “SARS-CoV-2” e “ultrassom”. Foram selecionados estudos que descreviam a técnica utilizada, as amostras de órgãos obtidas, a análise das alterações morfológicas e os resultados relevantes para o estudo da doença.
Resultados:
Os estudos revisados demonstraram que a autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassom é uma abordagem eficaz e segura para o estudo das alterações morfológicas causadas pelo SARS-CoV-2. A utilização de técnicas ultrassonográficas como guia durante o procedimento permitiu a realização de aspiração por agulha grossa de maneira precisa, resultando em alto rendimento na obtenção de tecidos representativos dos órgãos afetados pela COVID-19, como pulmões, coração, fígado e outros. A análise das amostras obtidas por autópsia minimamente invasiva revelou importantes alterações morfológicas causadas pelo SARS-CoV-2, incluindo pneumonia e/ou dano alveolar difuso, tromboses e embolia pulmonar. Essas descobertas têm contribuído para uma melhor compreensão dos efeitos do vírus no corpo humano e têm auxiliado no desenvolvimento de estratégias de tratamento e prevenção da COVID-19. Além disso, a revisão sistemática conduzida apresentou dados mais abrangentes, envolvendo um grande número de mortes associadas ao SARS-CoV-2 em Hamburgo, Alemanha. Os resultados obtidos por meio da autópsia minimamente invasiva, juntamente com outras técnicas de diagnóstico, como a tomografia computadorizada post-mortem, contribuíram para a diferenciação precisa entre mortes por COVID-19 e por outras causas. Essas informações são fundamentais para uma melhor compreensão da doença e para auxiliar na tomada de decisões clínicas e de saúde pública.
Discussão:
A autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassom tem se mostrado uma abordagem segura, eficaz e promissora para o estudo das alterações morfológicas causadas pelo SARS-CoV-2. Essa técnica minimiza os riscos de contágio associados às autópsias convencionais, permite uma análise detalhada dos órgãos afetados pela COVID-19 e fornece informações valiosas sobre a patologia e fisiopatologia da doença. A utilização do ultrassom como guia durante o procedimento de autópsia minimamente invasiva oferece várias vantagens, como a visualização em tempo real das estruturas anatômicas e a orientação precisa da aspiração por agulha grossa. Essa abordagem contribui para a obtenção de tecidos representativos, minimizando danos aos órgãos e maximizando a relevância das amostras coletadas. Os resultados obtidos por meio da autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassom têm implicações clínicas e científicas significativas. Essas informações podem contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas, melhorar a compreensão dos mecanismos patológicos da doença e ajudar na identificação de fatores de risco associados a complicações graves da COVID-19. A colaboração entre profissionais de saúde, pesquisadores e autoridades de saúde pública é fundamental para a realização de estudos robustos e confiáveis no contexto da autópsia minimamente invasiva. A cooperação entre esses diferentes atores permite a obtenção de dados abrangentes, incluindo informações clínicas, radiológicas e patológicas, que podem contribuir para uma melhor compreensão da COVID-19 e auxiliar na tomada de decisões clínicas e de saúde pública.
Conclusão:
A autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassom é uma abordagem promissora para o estudo das alterações morfológicas causadas pelo SARS-CoV-2 em pacientes falecidos devido à COVID-19. Essa técnica oferece uma alternativa segura, eficaz e de baixo risco em comparação com as autópsias convencionais, permitindo a obtenção de amostras de órgãos relevantes para análise. Recomenda-se a sua aplicação em estudos futuros para aprofundar o conhecimento sobre a doença e contribuir para o avanço do campo da patologia da COVID-19. As informações obtidas por meio da autópsia minimamente invasiva guiada por ultrassom têm o potencial de melhorar o diagnóstico, o tratamento e a prevenção da COVID-19, além de contribuir para o desenvolvimento de estratégias de saúde pública mais eficientes. A colaboração entre profissionais de saúde, pesquisadores e autoridades de saúde pública é essencial para o avanço contínuo nessa área. O estudo das alterações morfológicas causadas pelo SARS-CoV-2 por meio da autópsia minimamente invasiva representa um campo promissor de pesquisa e pode fornecer informações cruciais para combater a pandemia global da COVID-19.
Wendell da uz Silva
Mestrando em Direito Médico; Pós-graduado em Direito Médico e da Saúde. Pós-graduado em Segurança, Saúde e Medicina do Trabalho. Pós-graduado em Perícia Judicial e Extrajudicial. Pós-graduado em Formação de Docentes para o Ensino Superior. Bacharel em Ciências Jurídicas. Tecnico e Tecnólogo em Radiologia Médica e Industrial. Membro pesquisador da Sociedade Brasileira de Ciências Forenses – SBCF (2017-2023). Pesquisador no Grupo de Pesquisa de Direitos fundamentais e regime jurídico da saúde do CNPq. Conveniado a Sociedade Paulista de Radiologia e Diagnóstico por Imagem – SPR e Perito vinculado ao Instituto de Peritos do Brasil (2021-2023). Professor convidado na Escola de Educação Permanente do Hospital das Clínicas- EEPHCFMUSP.
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Refencia da imagem: Disponível em: <www.virtopsy.com> Acesso em: 15.06



